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O PAU DA GROSA

Uma tora de cedro, sarada, roliça, de uns noventa centímetros de diâmetro ficava  rente ao muro de pedras em volta da Matriz do Rosário de Entre Folhas. Sentados nela os moradores se informavam. Era o meio de comunicação dos moradores. O telefone, a televisão, a internet, a rádio, o aparelho esperto sem fio. O Pau da Grosa era o olho e o ouvido da povoação.

Testemunha viva de tristezas, de alegrias, de fofocas e diz-que-diz-que.
Antes da invenção da mundialização Entre Folhas era um "tribo", uma aldeia global graças ao bendito tronco de cedro.

Tudo sabia quem quem tivesse por hábito acomodar o assento na madeira de lei, virada para o Largo da Matriz, onde se erguia, soberbo, o velho coreto com base de pedra encimada por madeirame e telhas cumbuca, abrilhantado pelas retretas, com as crianças brincando no gramado ao redor. Lá vai fulano, está triste, o filho foi para o Rio de Janeiro procurar emprego, dizia um,  completava o outro, não mandou notícias o desalmado, olha veja, dona sicrana, ainda não, mas vai, sussurrava um terceiro, espia a mulata beltrana, foi trabalhar no Rio, voltou toda metida falando carioca.

Sem mais nem menos, na calada da noite, o Pau da Grosa sumiu. Nem mais que de repente. O Chico Tatu sabia da história. Acabou confirmando. O Vecélio Antônio Ferreira, ainda menino, ficou intrigado. Um dia foi levar um recado para o Salvador Mantuano, o gênio do Caparaó. O atelier do maior entalhista de Minas Gerais estava na torre da Matriz onde deixou as marcas da genialidade. Hoje estão destruindo sua obra como ocorreu com os quadros a fresco dos mistérios gloriosos. Viraram poeira juntamente com o piso da matriz construído por Padre José Lanzilotti. Não tem jeito, o Padre José rogou praga, Entre Folhas nunca há de ter padre fixo.

Pelo olho da fechadura Vecélio não acreditou no que viu. Era o cedro. Das entranhas saiam as feições do Senhor Morto. Quem diria, o Pau da Grosa foi parar debaixo do altar transformado em Senhor Morto! Senhor Morto de procissões, da cerimônia do encontro, do sermão das Sete Palavras, recitadas com compunção por Paulo Fontes. Senhor morto que ouvia o canto lamurioso da Verônica, interpretado pela Neuza Fontes na procissão noturna Ah! Entre Folhas das histórias, Entre Folhas que há mais! Diz a lenda que o Chico Tatu, nas noites de frio, falava ao Senhor Morto "O Senhor já dormiu demais". Retirava a imagem do caixão e dormia lá dentro. Quem entrasse na Matriz não entendia porque o Senhor Morto, às vezes, tiritava de frio ao pés do altar.

Está contada a história. "Se não for verdade, vale a lenda, publique-se a lenda".


Hélio Amaral (jornalista).