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“Ave  César; Ave  Lino...”

 

meninos carvoeiros

Quando passava pela rua, dava uma impressão esquisita de que seu corpo ia tombar, roubado pelo balanço descompensado de seu corpo ligeiramente torcido para o lado esquerdo. Os braços longos, lembravam uma estrutura de cangalha, ou o mastro rudimentar de uma jangada, e sobre o tronco a cabeça coberta do surrado chapéu palhinha, completava o imaginário de uma vela da embarcação nordestina. Era um corpo imenso, o corpanzil de um jaú; poderíamos “conjugar” aquilo tudo como uma “corporação”, em vez de um corpo, tamanha era a ignorância que carregava no seu ventre; um burro; como ele mesmo se auto-definia: “burro eu sou mesmo, um ignorante, mas essa é minha maneira de ser; quem quiser, que me aceite do jeito que eu sou.

Levava a sério, no entanto, toda atividade que assumia, ao ponto de se apaixonar por ela.

Por muitos anos, ou, por toda a vida, enquanto pertencemos ao município de Caratinga, o abandono era a tônica em nossa “Vila”. Falavam, como falam ainda, que a culpa era de nossos chefes políticos que não tinham prestígio. Àquele tempo, chefe político era sinônimo de vereador. Pois não é que resolveu virar “chefe político”?!

Através deste seu arroubo, tive a oportunidade de conhecer o primeiro Prefeito de minha vida; não é que ele conseguiu fazer com que o Prefeito do Caratinga viesse  passar um dia entre nós?! Não resolveu muito a vinda do homem, mas o certo é que brigaram depois.

Numa manhã de inverno, por volta das dez, chegou fazendo o maior escarcéu em minha casa. Prá mim foi uma grande surpresa; não havia muita coisa em comum entre nós dois. Ele era homem dos tempos de meu pai, ou de bem antes, e, nem mesmo a amizade entre eles era o bastante para justificar uma sua visita em meu tugúrio.

Com seu jeito especial de ser moleque, aboletou-se na cabeceira da mesa, e desfiou um rosário de causos e contos de sua adolescência e juventude, passadas em Entre-Folhas.

Somente naquele dia,  enquanto o  via ali sentado, foi que comecei a perceber quem, e o que era de verdade aquela figura, aquele sujeito desengonçado, odiado de muitos, admirado de outros (Neneba o admirava profundamente, quando menino, o que me deixava intrigado), aquela mistura de Burt Lancaster com Gladiador Romano.

Por ocasião da grande cheia do Entre-Folhas, que encharcou nossas entranhas, foi dos primeiros a doar material de construção para o nosso projeto de ajuda aos irmãos flagelados, mas foi o primeiro também a bater com a língua nos dentes, dizendo que tínhamos desviado dinheiro, como se tivéssemos recebido dinheiro de alguém.

Nunca sobressaiu qualquer mágoa a respeito disso. Conversamos e resolvemos a diferença de forma natural e civilizada. Quando resolvemos promover o primeiro encontro de entrefolhenses, não teve um instante de hesitação; saiu a campo, deu toda cobertura e não teve receio de acreditar no que propúnhamos (o sucesso pode ser visto durante muitos anos).

Aquela estranheza de jeito sacudido, não o impedia de gestos extremados de solidariedade e compreensão. Pouco antes de deixar-nos, desloquei-me de Belo Horizonte para visitá-lo; recebera notícia de que se achava adoentado e as informações não eram muito alvissareiras a seu respeito. Fui vê-lo, pois sabia de sua alegria quando se encontrava comigo; era prazer seu; repassava ponto por ponto, as questões políticas locais e regionais, ouvindo-me com tamanha deferência como se eu fosse um expert no assunto.

Imaginei encontrá-lo alquebrado sobre o leito. Encontrei-o solto na rua (sim, solto na rua, foi o que me disse, me soltaram hoje), lépido, vibrante, cheio de ânimo, com o mesmo jeitão burro/moleque, aquela estrutura de cangalha, “deveras” preocupado com o progresso político de Entre-Folhas, fonte inesgotável de seu vigor, alimento de sua mais alta pretensão, sonho de criança saída do colo da mãe; a mesma disposição destemida de bandeirante; destemido e valente, sem se preocupar com a retranca e com o revide dos que não ousam, dos pusilânimes, dos conformados, dos sabidos... era um burro, uma porteira... uma porteira que batia, batia, sempre no mesmo lugar, prá fazer calo, prá ficar marca, prá ficar brilhando no lugar que batia, que xingava em praça pública, fosse prefeito ou cabo de polícia, mas que tinha coragem e sensibilidade de deixar tudo o que estivesse fazendo, prá ir longe buscar um meio saco de mandioca, colocar nas costas, atravessar a Barreira, levar, levar, levar, só porque um amigo seu lhe havia dito que estava com vontade de comer uma vaca atolada.

Morreu, como um gladiador; ficamos, por enquanto, para recordar fatos que marcaram nossa convivência; mas haveremos de morrer um dia, isto é certo. E nós, que tivemos o privilégio de gozar de sua amizade haveremos que saudá-lo, paradoxalmente, sempre, em sinal de nosso respeito: “Ave Lino, morituri, te salutant.”

 Dr. Wagner M. Martins

 

já não vejo a chuva na vidraça

fazem vários meses.

dizem ser efeito de “el niño”.

em minha terra,

as casas não tem vidraças;

não ‘stamos em londres.

em minha terra,

“el niño” é menino que cresce

prá sentir sede e passar fome,

em casa de pau-a-pique

no nordeste árido e mau cheiroso

deste meu país indecente.

 

já não vejo o sol na janela

fazem vários meses.

efeito de “la niña” é o que dizem.

em minha terra,

as casas nem tem janelas;

não ‘stamos em toronto;

em minha terra,

“la niña” é menina que cresce,

vendendo a honra na beira de estrada,

deste meu país indecente.

 

já não vejo o pão sobre a mesa

fazem vários dias, já.

efeito da globalização, dizem.

em minha terra,

há casas que não tem pão.

em minha terra,

há casas que nem tem mesa;

não ‘stamos ao norte de europa

‘stamos no norte de minas,

crianças fazendo carvão,

neste meu país indecente.

 

                                                                                             wagner m. martins

 


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